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Espionagem chinesa rouba dados pessoais Computadores Devassados: Rede da justiça é “altamente vulnerável”
KAFKA ESTÁ A PASSAR POR AQUI… Isto é o que diz hoje o Correio da Manhã, depois de uma bastante ‘embrulhada’ notícia de ontem, que fez manchete e que demonstra não terem os seus autores percebido nada do que passa, nem sequer quem fez o quê. Hoje, o tiro foi corrigido. E ainda bem, porque o assunto é dos mais sérios que se possa imaginar. E mexe com os fundamentos da soberania (restante) do Estado português. Sapa-os, mesmo. A propósito destas notícias do CM, que “batem” com as lamúrias, de há semanas, do Presidente da República, é importante dizer que o Estado português tem andado a brincar em serviço. A começar pelo PR, pois não se entende que ao fim de três anos em Belém tenha de súbito ficado preocupado com a segurança do seu computador… Isso devia ter sido resolvido (e havia os recursos necessários) três dias antes de lá ter entrado (veja-se como Obama ou Sarkozy fizeram). E tão pouco é admissível a invocação da ignorância da matéria, pois o problema já era do conhecimento público. A ofensiva não-declarada dos chineses foi denunciada e explicada em artigo do “DN”, então dirigido por António Ribeiro Ferreira. Como aqui se escreve, “no Diário de Notícias, de 28 de Janeiro de 2004, José Mateus Cavaco Silva, editor da TDSNews, escrevia, num texto titulado “Mundo Irrestrito”, que “as redes e os computadores permitem uma guerra (não declarada) que pode paralisar totalmente a vida de um país ou mesmo de um bloco económico, como a União Europeia, ou de uma aliança militar, como a NATO”. Portanto, em Janeiro de 2004… Tão pouco se entende o atraso demonstrado, neste caso, pelo Direito (não ouso dizer a “Justiça”…) e pelo juiz em questão. Atraso e também arrogância. Muito disfuncionais e arcaicos. E a demonstrar uma incompreensão total do mundo de hoje. É como se andássemos a tratar os problemas actuais com o software das cabeças do século XIX… Estes juízes, como o resto do Estado, ainda vivem no interior das narrativas de Eça de Queiroz (de resto, também a Igreja, como agora se viu com a historieta do herege Saramago que mais parece um capítulo adicional do “Crime do Padre Amaro”…). Só alguns sectores das Forças Armadas escapam a este arcaísmo generalizado. Só nesses sectores militares se percebeu que as ameaças são hoje cada vez menos estatais e cada vez mais transnacionais e mais híbridas… Aqui no CLARO, a 11 Setembro 2004, dizia-se: “Como escrevia, já em 1997, Alain Bauer “sobretudo, o Estado deve sair do sonho arrogante e arcaico em que gere sozinho a defesa e a segurança. O Estado é hoje incapaz de afrontar sozinho ameaças cada vez menos “públicas” (emanando de outros Estados) e cada vez mais transnacionais e mais híbridas. O governo deve portanto abrir espaços de reflexão mistos e criar um partenariado forte com universitários, peritos vindos do privado e empresas especializadas. Em seguida, conceber uma doutrina sobre os novos perigos, tal como há uma doutrina de emprego do nuclear e, por fim, adaptar em consequência os instrumentos de informação, de defesa e de repressão do país… Nós estamos prontos a uma tal cooperação.” Em vez de abrir espaços de reflexão mistos e criar um partenariado forte com universitários, peritos vindos do privado e empresas especializadas, estão, com este caso a fazer ao contrário: estão a fechá-los. E os peritos das privadas (que descobriram e revelaram o caso) ainda são processados! Kafka está a passar por aqui… Ainda em Outubro de 2004, aqui no CLARO se escrevia sobre “Ciber-terrorismo no Mundo Irrestrito” e chamando a ATENÇÃO DO SENHOR MINISTRO DA DEFESA, à época Paulo Portas. “O senhor ministro da Defesa anunciou recentemente a criação de um laboratório contra-bioterrorismo. Portas solicitou ao CEME, general Valença Pinto, as medidas necessárias para a concepção e construção deste laboratório pois considera - e muito bem! - o combate ao terrorismo uma das prioridades da politica de Defesa. Mas a coisa parece um pouco coxa. A situação de ameaças difusas de grande imprevisibilidade não passa só pelo "bio", nem talvez prioritariamente por aí, mas pelo "ciber"... “A vulnerabilidade de estados e sociedades, como a portuguesa, é na vertente "ciber" muito grande! Pense-se na quase total exposição de redes, tanto públicas como privadas, tanto as de comunicação de Portas e do CEME como as bancárias ou eléctricas ou até as da água ! Para esclarecer melhor aquilo a que aqui se faz referência, veja-se o que diz hoje a news-letter do centro de inteligência económica do BNP Paribas: Sécurité La Corée du Nord formerait des pirates informatiques pour attaquer les Etats-Unis, le Japon… Les guerres informatiques du 21ème siècle seront-elles informatiques ? Déjà en Irak, dans le conflit qui oppose les « terroristes » aux pays qui occupent le pays depuis des mois pour protéger le gouvernement récemment mis en place, le haut débit est une arme efficace. Les sites Internet et la vidéo permettent aux acteurs de la guérilla de communiquer au monde les actions qu’ils mènent. Autre réalité, en Asie cette fois : le ministre sud-coréen à la défense a faut savoir au parlement de son pays que son voisin, la Corée du Nord, s’était attelé à la formation de plusieurs centaines de pirates informatiques. Aujourd’hui, le pays aurait même atteint un niveau comparable à celui constaté dans la plupart des pays développés. L’information n’est pas si surprenante, dans le cas d’une dictature qui continue de dépenser des fortunes pour entretenir une puissante armée. Les cibles informatiques de la Corée du Nord sont aujourd’hui son voisin direct, la Corée du Sud, mais encore la Chine, le Japon et les Etats-Unis. (Groupe BNP Paribas - 05/10/2004) Como num romance de terror, os ecos a estes alertas só chegaram cinco anos depois. E foram os piores… Acreditem que me senti envergonhado ao ouvir, recentemente, a “comunicação ao país” do inquilino do Palácio de Belém e as enfáticas dúvidas sobre a segurança dos e-mails. Como o artigo de Janeiro de 2004, no DN, não está on line (até nisto o arcaísmo é gritante…), deixo aqui o registo: Mundo Irrestrito José Mateus* Diário de Notícias, 28 de Janeiro de 2004 Sobre as realidades deste mundo em que vivemos, mais do que ouvir certos doutores dissertar contra a globalização, vale a pena ler alguns coronéis – como os chineses Qiao Liang e Wang Xiangsi. Dignos discípulos de Sun Tzu, comunistas por educação, necessidade e convicção, mas demasiado inteligentes para perder tempo com as tragédias da Karl Marx Platz ou as comédias do Trotsky Circus, os senhores coronéis são os autores da obra que marca a passagem do século XX para o século XXI, no domínio da grande estratégia. O quadro estratégico que colocam – o seu tempo, o seu espaço, os meios, os objectivos e o próprio modo de pensar – já não têm nada da “Guerra Fria” que marcou a última metade do século XX. Com a sua obra, entramos em outro mundo. Por mim, penso que devemos estar-lhes gratos por nos mostrarem, com lucidez e frieza, o mundo em que estamos. Com efeito, nunca um intelectual ocidental - o “politicamente correcto” oblige e limita -ousaria estampar e divulgar tais visões e consequentes propostas militares, políticas e estratégicas. Depois desta publicação, todo o mundo da Estratégia MAD e correlativos (incluindo certas pretensões de Moscovo...), nos parece como pertencendo à pré-história. Hoje, vivemos na “Guerra Irrestrita”. Veja-se a beleza deste adjectivo... A tese dos coronéis chineses é simples, na sua frieza: “A guerra assimétrica não tem regras, nada é proibido”. E que vectores de actuação privilegiam os coronéis chineses? Três: as redes e os computadores, os agentes de influência e o terror e as armas de destruição de massas. As redes e os computadores permitem uma guerra (não declarada) que pode paralisar totalmente a vida de um país ou mesmo de um bloco económico, como a União Europeia, ou de uma aliança militar, como a NATO. Através dos agentes de influência, os coronéis chineses propõem-se influenciar no Ocidente atitudes e opiniões, via financiamentos secretos de grupos políticos, incentivar o terrorismo urbano e espalhar rumores e escândalos que criem descontentamentos e tumultos. O caso do ataque com gás sarin realizado no metro de Tóquio pela seita da Verdade Suprema é citado como exemplo do uso necessário do terror puro e a venda de armas de destruição de massa por Pequim a países que apoiem o terrorismo é apontada como imprescindível. E - note-se que a obra é de 1999 – o exemplo citado é o de ... Bin Laden. A paralisação de um país ou de um bloco de países, a desarticulação da sua vida económica e também social, via computadores e redes, o uso do terror e da destruição massissa, o recurso aos agentes de influência e às técnicas de manipulação são os meios dos coronéis chineses para a nova estratégia de “Guerra Irrestrita”. No fundo, todos eles meios de “guerra psicológica” que, desde há milénios, sempre foi a forma de guerra preferida dos chineses. Já Sun Tzu privilegiava os espiões e as acções de guerra psicológica e Mao Tsé Tung visava a desmoralização do adversário. Ora, o “psicológico”é hoje o ponto central daquilo que se começa a designar por Ciberguerra. O especialista português desta matéria, Sérgio Campos, em trabalho ainda não publicado, considera mesmo a ciberguerra como “ a forma de “guerra total” que pode vir a ser aplicadas no século XXI, sendo que é evidente que o conceito abrange aquilo que os grandes teóricos da guerra, tanto Liddel Hart como Fuller entendiam como “paralisação estratégica”. Para Sérgio Campos, “ o que é dramático é que, a somar à ameaça, há o facto de as sociedades ocidentais confiarem em redes desprotegidas, que conduzem ao risco de fracasso militar e a perdas económicas catastróficas. As possibilidades (do atacante) são de facto imensas, pois cada vez mais a própria complexidade e dimensão das organizações e das actividades leva a uma dependência acrescida dos computadores, os quais armazenam informações que não estão mais disponíveis de outra forma “. Ou seja, informações que não existem fora das tais redes desprotegidas... Pense-se na realíssima possibilidade de acontecer amanhã um ciberataque ao sistema bancário, às redes de energia, água ou telecomunicações, ao sistema de controlo de voo ou até ao sistema do Ministério da Justiça, da Defesa, da Administração Interna, ao Gabinete do Primeiro-Ministro ou, porque não, à Rede do Governo... Pense-se nisso, não como num filme distante mas como algo de que podemos saber daqui a pouco e da pior maneira, pois até a rádio pode não funcionar... ou não funcionar bem! O cenário da “guerra Irrestrita” está montado, as suas perspectivas são aterradoras e – uma dúzia de anos depois da queda do muro de Berlim – quantas saudades já daquela paz dos tempos do equilíbrio do terror assegurado pela Estratégia MAD, da Guerra Fria. O doutor M. Soares - um dos nossos doutores que mais tem dissertado contra a globalização - tem razão numa coisa: entramos realmente num mundo inquietante. Mas constatar não chega. O papel da liderança é, aliás, o que se desenvolve para além da constatação. Não tenho a certeza que as cabeças pensantes da maioria governamental, de Barroso a Pacheco e de Marcelo a Portas pratiquem esta convicção, mas têm e terão todas as oportunidades de no-lo demonstrarem ou… não. Soares é o homem de uma circunstância – 1974/75 – e o domínio da estratégia nunca foi o seu. Soares constata que entramos num mundo inquietante, mas quem o descreve, nas suas fragilidades e potencialidades, são os coronéis chineses. Daí a prioridade de conhecer o seu pensamento e, citando Sun Tzu, encontrar uma estratégia que supere a dos coronéis chineses… senão Qiao Liang e Wang Xiangsi já venceram. Este é o problema da liderança: no Governo, na Oposição, na Sociedade Civil (das associações empresariais aos media passando pela Universidade) quem lhe quer pegar? * Consultor de Comunicação e Auditor de Defesa Nacional Para terminar já, que a prosa vai demasiado longa, mesmo se a importância do tema o justifica, só uma nota: Não é difícil “adivinhar” que isto não é o fim mas apenas o princípio e que vai ser muito pior. Por isso, para não destruírem tudo por omissão, os senhores políticos que se preparem e preparem o País… E lembrem-se do que dizia (em 1997!) Alain Bauer sobre a arrogância e o arcaísmo. Já chega de andar a brincar em serviço! José Mateus Cavaco Silva at October 25, 2009 21:04 |
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Tags: china, portugal, homeland security, inteligência estratégica, mudança do modelo global, terrorismo, defesa, psd, ps, Cavaco |
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