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" O INFERNO " ou a descida de Portugal ao dito Quadro de mestre português desconhecido, do início do século XVI, talvez 1515, "O Inferno" é uma das obras da pintura portuguesa que mais aprecio e mais me impressionam. Quadro complexo, merecedor e exigente de vários níveis de leitura. Obra também muito irónica numa leitura que destaque as contradições que se estabelecem entre os vários níveis de leitura... De aparência muito piedosa, ela denuncia o ambiente do estabelecimento dos domini canis e sua mafia santa - a Inquisição. O terror, um aviso de atenção ao terror que aí se instala, um aviso de o fogo espreita-vos, é a mensagem imediata, mascarada, porém, pelo título "O Inferno" que permite ao mestre seu autor dizer que apenas está a ser bom cristão e avisar para a necessidade de se portar bem para não ser castigado mais tarde nos infernos. Mas é, na sua linguagem, também o primeiro quadro (óleo sobre tábua de carvalho) a mostrar a nudez humana (Nuno Gonçalves, décadas antes, mete uma tanga no seu S. Vicente...) e, sobretudo, o nu feminino. E não mostra um nu feminino escondido e disfarçado algures... Não, mostra vários e um deles bem destacado no primeiro plano. Isto faz dele um caso pioneiro e único na pintura portuguesa de quinhentos (e dos séculos seguintes...) que será aniquilada pela estética de Trento e pelo index e as fogueiras da santa mafia dos domini canis que excluem tudo o que o que não seja a pieguice santanária, transformando a pintura portuguesa (tal como o País...) numa galeria de horrores que durou séculos... Aqui tão bem anunciados por este mestre que ficou desconhecido. Ou melhor, se manteve oculto. Esta obra, sob a capa de crítica aos sete pecados, sempre me pareceu representar e anunciar (no início do século XVI) a descida de Portugal a "O inferno"... de onde já tentámos algumas vezes mas ainda não conseguimos realmente sair. Que te parece, Rui...? |
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