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num Blog-Notas, para tornar o obscuro bastante mais...

CLARO
Wednesday, 30 March 2005

DA IMPORTÂNCIA DE VASCO PULIDO VALENTE

VPV, este lord inglês exilado (vá-se lá saber por que misteriosas razões...) neste país de cafres, alcança o supremo feito de olhar para o que somos e ver-nos como mais ninguém consegue e como nós não gostamos de nos ver retratados... VPV pode enganar-se, engana-se, mas tem o olhar mais frio e lúcido sobre Portugal que me é dado conhecer. Creio que se ele pintasse teria muito em comum com Goya... Esta pedagogia regular de VPV no Público e a dessacralização do "político" que ele pratica são, paradoxalmente, a prova de que há política, para além dos profissionais da política, no país de cafres... De que nem tudo está perdido! E prova ainda de que a cidadania é possível e que uma intervenção política profícua é cada vez mais possível fora dos aparelhos partidários arcaicos (dos anos setenta) e dos seus esquemas de profissionalismo autista. Daí estarmos agradecidos à universidade inglesa por o não  ter retido e no-lo ter disponibilizado... Many thanks!

 Que num debate sobre a direita, a uns dias do referendo sobre o aborto, e quando se recomenda o "debate ideológico", a Igreja não se mencione é um contra-senso ou uma fuga.

Ontem, em conversa com este jornal, as cabeças pensantes da direita portuguesa conseguiram o milagre de falar da direita sem falar da Igreja. Voluntária ou involuntária, esta omissão é curiosíssima. Por várias razões. Primeiro, porque a história e a própria existência da direita sempre esteve, e continua a estar, ligada à Igreja. O miguelismo foi uma aliança entre o trono e o altar e o anti-clericalismo dividiu os campos durante todo o século XIX e mais de metade do século XX. Ninguém conseguia ficar neutro ou sequer à margem. Ou se estava de um lado ou se estava do outro. A literatura (incluindo o ensaio) reflecte, aliás, muito fielmente o que sucedia na sociedade e na política. De Garrett a Sérgio, corre, página a página, um ódio inextinguível à Igreja e ao padre, que nenhum católico conseguiu contrariar ou sequer mitigar. A Monarquia caiu em grande parte por causa da "questão religiosa" e a República ou, mais precisamente, o Partido Democrático de Afonso Costa não passou em grande parte uma perseguição endémica à Igreja.
Mas, no fim, a Igreja ganhou. Salazar era a sua criatura e o Estado Novo o seu regime. Muito se tem escrito sobre a independência que Salazar supostamente assegurou ao Estado. Não assegurou nada. A Ditadura vivia do facto, para ela feliz, de existir um pároco em cada paróquia. Não precisava de um partido único para doutrinar, vigiar e reprimir a população. A Igreja bastava e, quando ela faltou, depois do Concílio e de Paulo VI, tudo tremeu e se desfez. Caetano, coitado, acabou sem fé. Mas, durante o PREC, a Igreja resistiu e ainda em 1979, na campanha da AD, assisti a muita missa em que se proibia o voto no PS, por ser obviamente um "partido marxista". Em 1980, os velhos ministros de Salazar já ensinavam na Universidade Católica, que desde essa altura se tornou na principal escola de quadros da direita.
Fora esta realidade crua e dura, também não se vê bem como qualquer "refundação" do CDS ou do PSD possa a prazo prescindir dos valores da Igreja e do seu apoio institucional activo. Não por acaso aumenta constantemente o número de políticos que exibem com clamor o seu catolicismo. Eles sabem que precisam de uma referência ao mesmo tempo popular e sólida para moderar ou conter o "politicamente correcto". Que num debate sobre a direita, a uns dias do referendo sobre o aborto, e quando se recomenda o "debate ideológico", a Igreja não se mencione é um contra-senso ou uma fuga.

José Mateus Cavaco Silva at March 30, 2005 02:18 | link | comments
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