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num Blog-Notas, para tornar o obscuro bastante mais...

CLARO
Sunday, 19 December 2004

Pequena nota com um abraço ao Prof. Maltez

"Os recortes genealógicos

da nossa extrema-esquerda "

Convém compreender que desde o fim da segunda guerra  até meados dos anos sessenta, este país chamado Portugal foi um verdadeiro condomínio da aliança tácita Salazar-Cunhal, os dois irmãos inimigos mas irmãos na partilha de um mesmo horizonte tacanho, provinciano, rural e totalitário. E também anti-democrático, anti-liberal, anti-americano... e centralista, estatista, autarcista e continentalista (no continentalismo de Cunhal, a Roma Vermelha de Moscovo, a tal que era o "sol do mundo", substituía a Roma católico-sacrista de Salazar).

A partir de meados dos anos 60, este duopólio vai ser quebrado. Uma extrema-esquerda anti-moscovita (muito portuguesa e democrática no caso da LUAR, pró-albanesa no caso da miríade grupuscular UDP e pró-chinesa aprendida em Macau no caso do MRPP...) vai conseguir ganhar a guerra que, em 1958/1962, um homem, o saudoso general maçon Humberto Delgado, não pudera vencer, talvez por ainda haver jogado no quadro do regime, acabando vítima de fraudes,  entendimentos KGB/PIDE e outras trapaças que culminaram no seu assassinato. Depois do crime de Badajoz, era claro que um homem jogando no quadro do regime ou nas suas margens não era o suficiente para vencer e quebrar o duopólio Salazar/Cunhal. Só uma verdadeira "operação caos", jogando fora do sistema, multiplicando células e organismos, utilizando novas metodologias de organização e de  trabalho, novos discursos para novos alvos, novos métodos de propaganda e novas técnicas de rua, o poderia fazer. Foi essa a função histórica da extrema-esquerda que a desempenhou de modo notabilíssimo e triunfou onde todos tinham falhado! Em 1973/74, o duopólio político-cultural não existia mais e tanto o salazarismo como Cunhal estavam obrigados a jogar à defesa perante uma extrema esquerda que dominava a violência política, as universidades, os liceus, bairros populares e penetrava nas fábricas e empresas a grande velocidade.

Quebrado o duopólio por esta "operação caos", criara-se o espaço político e o campo de manobra para a criação do PS e para o avanço dos "capitães de Abril"... Os jovens dirigentes dessa extrema-esquerda que quebrara o duopólio tinham pela sua frente um magnífico horizonte, bastava-lhes, para saltarem para dirigentes do País, deixarem passar uns anos, acabarem os cursos e... mudarem de partido, sempre com a consciência de que eles eram a élite vitoriosa que havia ganho onde todos haviam perdido. E foi o que aconteceu!

José Mateus Cavaco Silva at December 19, 2004 18:15 | link | comments
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