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num Blog-Notas, para tornar o obscuro bastante mais...

CLARO
Saturday, 20 November 2004

Estar à esquerda é estar perto do eleitorado

O PS DE ESQUERDA

A questão prioritária e incontornável é a de saber o que, neste início do século XXI em Portugal, significa ser de esquerda.

Certo, o PS tem de ser – porque o é, sempre o foi – de esquerda. Claramente. Sem medos e sem camuflagens. Assumidamente, de esquerda. Mas de que esquerda falamos e o que se quer dizer com isso? Obviamente, falamos da única esquerda possível, aqui e agora. A esquerda democrática, aquela esquerda , de origem ocidental, que não só sempre aceitou como se bateu valentemente pela democracia , pelo sufrágio universal e pela liberdade de expressão. Desde a Declaração Universal dos Direitos do Homem até ao português Verão de 75 - quando a velha maré leninista veio afogar-se na praia lusitana - e seu culminar a 25 de Novembro, passando pelo nunca suficientemente lembrado Cartismo inglês. Quando falamos de esquerda, é disto que falamos. Não falamos de outra coisa.

Não falamos, obviamente, de uma esquerda de origem oriental, gerada no seio do que Marx designava por «modo de produção asiático», que tem na sua marca genética a recusa absoluta da democracia, do sufrágio universal e da liberdade de expressão (vidé todos os escritos de Lénine sobre eleições, liberdade de imprensa e democracia...).

Essa esquerda leninista é estranha à genuína tradição desta Europa que não conheceu a «Segunda Servidão» (nem a terceira...), é também radicalmente totalitária e despreza e odeia tudo o que a esquerda democrática representa – a democracia e a liberdade.

Mesmo se hoje não se atreve já a assumi-lo, se praticou, no seu discurso, muitos liftings e é cada vez mais muito duplo jogo, muito dupla linguagem, mesmo se longe vão os tempos do orgulhosamente totalitária (vidé todos os escritos de Cunhal e seus acompanhantes, desde os anos trinta até ao fim dos anos setenta...), mesmo se a sua Roma vermelha implodiu, no maior fracasso político do século XX, a verdade é que não vimos até agora sinais de qualquer reconhecimento e muito menos de renúncia às práticas totalitárias e ao seu «socialismo real». Apenas se tem assistido a escaramuças sobre questões de ordem táctica, sobre quais as melhores tácticas a utilizar para a sobrevivência política ou mesmo e sobretudo apenas pessoal... Nada de novo, essa discussão é, de facto, tão velha quanto o próprio leninismo.

Por tudo isto, a questão prioritária e incontornável é a de saber o que, neste início do século XXI em Portugal, significa ser de esquerda.

Ser de esquerda será a banalidade ignara de qualquer "trotsquismo" fracturante, travestido e muito societal? Será uma aproximação ao "leninismo" residual, ahistórico e deslocado, ao que resta dos seus soldados derrotados e perdidos? Será uma cultura do "não", entendido como o valor estruturante da liberdade? Será, num exercício de simples aritmética (que não de álgebra...) eleitoral, procurar adoptar e adaptar posições que permitam somas eleitorais com os resíduos e as sobrevivências da esquerda totalitária, que sempre foi inimiga fatal da democracia e do socialismo democrático?

Penso que não. Penso que nada disto é ser a Esquerda de hoje. Penso que não é nada disto que os eleitores da esquerda democrática portuguesa de hoje querem e esperam.

O que os eleitores da esquerda democrática querem é que ela volte ao poder e governe. E governe para realizar os anseios de liberdade, segurança e bem-estar dos seus eleitores. Para isso, há que ganhar eleições... Em democracia, só se chega ao governo ganhando votos. Indo ao encontro do seu eleitorado e ganhando mesmo aquela parte do eleitorado do adversário que pode ser conquistada. Este é o único caminho que a Esquerda democrática conhece. A esquerda totalitária, pelo contrário, queima tempo em tácticas sempre à espera do momento, da falha, que lhe permita assaltar e capturar o poder.

Em Portugal, todo este quadro eleitoral está definido, é há anos conhecido e tem sido e pode ser objecto de estudo. Pode objectar-se que o sistema político-eleitoral dá sinais de esgotamento, que uma outra paisagem política seria desejável e é possível. Nada a opôr. Mas as próximas eleições vão disputar-se neste quadro político-eleitoral. E ou o PSD as perde e o PS as ganha ou as perde o PS e ganha-as o PSD... Para ganhar qualquer um dos dois partidos terá de consolidar o seu eleitorado e ganhar uma parte do eleitorado do outro. Este é – no horizonte previsível – o fado eleitoral da nossa democracia. Fora disto só variações de balalaica...

D. João II costumava dizer que, nos assuntos de Estado, há momentos de coruja e momentos de falcão... A esquerda democrática não atravessa, manifestamente, nenhum momento de falcão. Talvez seja, então, este o momento certo para um exercício de alguma humildade, como o de reconhecer certos erros e disparates.

Um grave disparate tem sido o de não estar à escuta do que pensa e diz o seu eleitorado (sobretudo quando esse eleitorado é complexo e diz várias coisas ao mesmo tempo...). Esta atitude tem levado a esquerda democrática a comportar-se por vezes como dona dos votos e sofrer, em seguida, os amargos de boca consequentes ao castigo (melhor seria dizer correctivo...) que o eleitorado lhe aplica. Como outra face desta moeda tem surgido o erro de fechar as discussões e os debates da política em quadros conceptuais redutores, ultrapassados e incapazes de integrar toda a riqueza dos actuais problemas da conjuntura político-estratégica.

É este autismo que confunde a política com as "banalidades de base" de qualquer catecismo e reduz o debate a uma espécie de saber inquisitorial normativo (e as normas são sempre de um passado frequentemente ultrapassado...), onde a discussão se resume a catalogar determinada medida ou posição como "social-democrata", "socialista democrática", "social-liberal" ou simplesmente "liberal"... E esconjurar, em seguida, ou aprovar e considerar politicamente correcto.

Entretanto, o eleitorado tem, é claro, outras prioridades e preocupações. E, acontece, procura outros boletins de voto. Nessas alturas, o não entendimento da mensagem do eleitorado manifesta-se na discussão de saber se foi por não se estar suficientemente à esquerda que se perdeu... E, paradoxalmente, foi!

Porque estar à esquerda é estar perto do eleitorado. Ouvir o que ele diz. Traduzir isso em propostas políticas e realizá-las quando o mesmo eleitorado der as condições necessárias e suficientes.

A esquerda democrática tem, hoje e em Portugal, de perceber os problemas que preocupam o seu eleitorado e encontrar resposta para eles. E fazer perceber que só ela, esquerda democrática, tem as respostas certas.

Assim com os problemas de segurança. Quer sejam os da segurança nas ruas, quer sejam os da segurança das condições de vida, de emprego ou de inserção social. Foi com a esquerda democrática que a maioria da população ganhou o direito à segurança, a qualquer segurança desde a pessoal à social. Esquece-lo será, pior que um crime, um erro que entregará eleitorado da esquerda democrática nos braços de uma qualquer demagogia securitária mas impotente.

Assim com os problemas de bem-estar. Quer sejam os do bem-estar físico ou material. Foi com a esquerda democrática que a maioria da população ganhou o acesso à educação, ao desporto e à saúde.

Foi com a esquerda democrática que a maioria da população passou de simples factor de produção a agente da economia, quer como produtor quer como consumidor. Hoje, ainda mais do que antes, só a esquerda democrática pode garantir ao seu vasto eleitorado e ao País as condições sociais necessárias para o normal funcionamento da economia, garantindo pela solidariedade social a ausência de rupturas do tecido social e a estabilidade política.

E não se trata aqui de opor o Estado social à Economia de mercado. Trata-se, sim, de garantir que a economia que existe funciona e que a função social do Estado evita as rupturas do tecido social. Sem atentados à liberdade dos cidadãos.

Ou seja, definidos o ser e as funções da esquerda democrática, ela ganhará se estiver perto do seu eleitorado, se souber ouvi-lo e se traduzir o que ouve em acção política. Perderá se optar por se juntar aos resquícios de totalitarismos passados. Diz-me junto de quem estás, dir-te-ei se ganhas ou perdes...

José Mateus Cavaco Silva at November 20, 2004 03:22 | link | comments
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