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num Blog-Notas, para tornar o obscuro bastante mais...

CLARO
Tuesday, 05 October 2004

Ciber-terrorismo no Mundo Irrestrito

À ATENÇÃO DO SENHOR

MINISTRO DA DEFESA

O senhor ministro da Defesa anunciou recentemente a criação de um laboratório contra-bioterrorismo. Portas solicitou ao CEME, general Valença Pinto, as medidas necessárias para a concepção e construção deste laboratório pois considera - e muito bem! - o combate ao terrorismo uma das prioridades da politica de Defesa. Mas a coisa parece um pouco coxa. A situação de ameaças difusas de grande imprevisibilidade não passa só pelo "bio", nem talvez prioritariamente por aí, mas pelo "ciber"... A vulnerabilidade de estados e sociedades como a portuguesa é na vertente "ciber" muito grande! Pense-se na quase total exposição de redes, tanto públicas como privadas, tanto as de comunicação de Portas e do CEME como as bancárias ou eléctricas ou até as da água ! Para esclarecer melhor aquilo a que aqui se faz referência, veja-se o que diz hoje a news-letter do centro de inteligência económica do BNP Paribas...

Sécurité

La Corée du Nord formerait des pirates informatiques pour attaquer les Etats-Unis, le Japon…

Les guerres informatiques du 21ème siècle seront-elles informatiques ?

Déjà en Irak, dans le conflit qui oppose les « terroristes » aux pays qui occupent le pays depuis des mois pour protéger le gouvernement récemment mis en place, le haut débit est une arme efficace. Les sites Internet et la vidéo permettent aux acteurs de la guérilla de communiquer au monde les actions qu’ils mènent.

Autre réalité, en Asie cette fois : le ministre sud-coréen à la défense a faut savoir au parlement de son pays que son voisin, la Corée du Nord, s’était attelé à la formation de plusieurs centaines de pirates informatiques.

Aujourd’hui, le pays aurait même atteint un niveau comparable à celui constaté dans la plupart des pays développés. L’information n’est pas si surprenante, dans le cas d’une dictature qui continue de dépenser des fortunes pour entretenir une puissante armée. Les cibles informatiques de la Corée du Nord sont aujourd’hui son voisin direct, la Corée du Sud, mais encore la Chine, le Japon et les Etats-Unis.

(Atelier groupe BNP Paribas - 05/10/2004)

Parece oportuno recordar aqui um "alerta" publicado no "Diário de Noticias" do tempo da direcção de António Ribeiro Ferreira :

Mundo Irrestrito

José Mateus*

Sobre as realidades deste mundo em que vivemos, mais do que ouvir certos doutores dissertar contra a globalização, vale a pena ler alguns coronéis – como os chineses Qiao Liang e Wang Xiangsi.

Dignos discípulos de Sun Tzu, comunistas por educação, necessidade e convicção, mas demasiado inteligentes para perder tempo com as tragédias da Karl Marx Platz ou as comédias do Trotsky Circus, os senhores coronéis são os autores da obra que marca a passagem do século XX para o século XXI, no domínio da grande estratégia.

O quadro estratégico que colocam – o seu tempo, o seu espaço, os meios, os objectivos e o próprio modo de pensar – já não têm nada da “Guerra Fria” que marcou a última metade do século XX. Com a sua obra, entramos em outro mundo.

Por mim, penso que devemos estar-lhes gratos por nos mostrarem, com lucidez e frieza, o mundo em que estamos. Com efeito, nunca um intelectual ocidental - o “politicamente correcto” oblige e limita -ousaria estampar e divulgar tais visões e consequentes propostas militares, políticas e estratégicas.

Depois desta publicação, todo o mundo da Estratégia MAD e correlativos (incluindo certas pretensões de Moscovo...), nos parece como pertencendo à pré-história. Hoje, vivemos na “Guerra Irrestrita”. Veja-se a beleza deste adjectivo...

A tese dos coronéis chineses é simples, na sua frieza: “A guerra assimétrica não tem regras, nada é proibido”.

E que vectores de actuação privilegiam os coronéis chineses? Três: as redes e os computadores, os agentes de influência e o terror e as armas de destruição de massas.

As redes e os computadores permitem uma guerra (não declarada) que pode paralisar totalmente a vida de um país ou mesmo de um bloco económico, como a União Europeia, ou de uma aliança militar, como a NATO.

Através dos agentes de influência, os coronéis chineses propõem-se influenciar no Ocidente atitudes e opiniões, via financiamentos secretos de grupos políticos, incentivar o terrorismo urbano e espalhar rumores e escândalos que criem descontentamentos e tumultos.

O caso do ataque com gás sarin realizado no metro de Tóquio pela seita da Verdade Suprema é citado como exemplo do uso necessário do terror puro e a venda de armas de destruição de massa por Pequim a países que apoiem o terrorismo é apontada como imprescindível. E - note-se que a obra é de 1999 – o exemplo citado é o de ... Bin Laden.

A paralisação de um país ou de um bloco de países, a desarticulação da sua vida económica e também social, via computadores e redes, o uso do terror e da destruição massissa, o recurso aos agentes de influência e às técnicas de manipulação são os meios dos coronéis chineses para a nova estratégia de “Guerra Irrestrita”.

No fundo, todos eles meios de “guerra psicológica” que, desde há milénios, sempre foi a forma de guerra preferida dos chineses. Já Sun Tzu privilegiava os espiões e as acções de guerra psicológica e Mao Tsé Tung visava a desmoralização do adversário. Ora, o “psicológico”é hoje o ponto central daquilo que se começa a designar por Ciberguerra.

O especialista português desta matéria, Sérgio Campos, em trabalho ainda não publicado, considera mesmo a ciberguerra como “ a forma de “guerra total” que pode vir a ser aplicadas no século XXI, sendo que é evidente que o conceito abrange aquilo que os grandes teóricos da guerra, tanto Liddel Hart como Fuller entendiam como “paralisação estratégica”.

Para Sérgio Campos, “ o que é dramático é que, a somar à ameaça, há o facto de as sociedades ocidentais confiarem em redes desprotegidas, que conduzem ao risco de fracasso militar e a perdas económicas catastróficas. As possibilidades (do atacante) são de facto imensas, pois cada vez mais a própria complexidade e dimensão das organizações e das actividades leva a uma dependência acrescida dos computadores, os quais armazenam informações que não estão mais disponíveis de outra forma “. Ou seja, informações que não existem fora das tais redes desprotegidas...

Pense-se na realíssima possibilidade de acontecer amanhã um ciberataque ao sistema bancário, às redes de energia, água ou telecomunicações, ao sistema de controlo de voo ou até ao sistema do Ministério da Justiça, da Defesa, da Administração Interna, ao Gabinete do Primeiro-Ministro ou, porque não, à Rede do Governo... Pense-se nisso, não como num filme distante mas como algo de que podemos saber daqui a pouco e da pior maneira, pois até a rádio pode não funcionar... ou não funcionar bem! O cenário da “guerra Irrestrita” está montado, as suas perspectivas são aterradoras e – uma dúzia de anos depois da queda do muro de Berlim – quantas saudades daquela paz dos tempos do equilíbrio do terror assegurado pela Estratégia MAD, da Guerra Fria.

O doutor M. Soares - um dos nossos doutores que mais tem dissertado contra a globalização - tem razão numa coisa: entramos realmente num mundo inquietante. Mas constatar não chega. O papel da liderança é, aliás, o que se desenvolve para além da constatação. Não tenho a certeza que as cabeças pensantes da maioria governamental, de Barroso a Pacheco e de Marcelo a Portas pratiquem esta convicção, mas têm e terão todas as oportunidades de no-lo demonstrarem ou… não.

Soares é o homem de uma circunstância – 1974/75 – e o domínio da estratégia nunca foi o seu. Soares constata que entramos num mundo inquietante, mas quem o descreve, nas suas fragilidades e potencialidades, são os coronéis chineses. Daí a prioridade de conhecer o seu pensamento e, citando Sun Tzu, encontrar uma estratégia que supere a dos coronéis chineses… senão Qiao Liang e Wang Xiangsi já venceram. Este é o problema da liderança: no Governo, na Oposição, na Sociedade Civil (das associações empresariais aos media passando pela Universidade) quem lhe quer pegar?

* Consultor de Comunicação e Auditor de Defesa Nacional

José Mateus Cavaco Silva at October 05, 2004 19:44 | link | comments
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